autoconhecimento é uma distorção retrospectiva, operada sobretudo a partir do que se convencionou
chamar de "momento cartesiano". Na Antiguidade5, a formação do indivíduo capaz de responder por si
mesmo não partia de uma contemplação solipsista, mas de um imperativo eminentemente prático e
relacional do cuidado de si (epimeleia heautou).
O trabalho arqueológico conduzido por Michel Foucault sobre a hermenêutica do sujeito demonstra
que, originalmente, o axioma delphico não exigia uma investigação psicológica ou ontológica da
própria alma. Tratava-se, antes, de uma regra de prudência em que há um lembrete aos consulentes
de que eram mortais e não deuses, talvez em um sentido diverso ao futuro memento mori, mas ainda
sim advertindo-os contra a desmedida. No entanto, quando essa máxima ingressa de fato no
vocabulário filosófico fundante da subjetividade, especialmente em torno da figura de Sócrates, ela
não o faz de maneira isolada ou soberana, mas submetida a uma exigência anterior e mais árdua. O
indivíduo só é instado a conhecer a si mesmo na exata medida em que precisa cuidar de si mesmo.
Foucault (2001, p.5-6) demonstra que o gnothi seauton é apenas uma aplicação pontual e subordinada
à regra geral de que o indivíduo não deve se esquecer de cuidar de si mesmo
Esse deslocamento metodológico é crucial para a Teoria do Direito. Se a personalidade jurídica
pressupõe um sujeito autônomo, capaz de exercer direitos, contrair obrigações e relacionar-se no
espaço público (a pólis moderna), essa autonomia não se apresenta em um dado biológico ou como
um dom metafísico, mas é construído (Erfindung) historicamente de um labor, de uma exigência de
que o indivíduo se constitua como tal. A personalidade, antes de ser declarada em um Código Civil,
precisou ser inventada como um trabalho ético do sujeito sobre si mesmo.
O diálogo Alcibíades Primeiro6, de Platão, ilustra essa Erfindung. O diagnóstico socrático denuncia a
pretensão do jovem ao expor sua "dupla ignorância", de forma que Alcibíades não apenas desconhece
a essência da justiça e da boa governança, como também ignora a sua própria condição de ignorante.
É neste vácuo de certezas que o cuidado de si (epimeleia heautou) se impõe como condição de
possibilidade para a ação. O sujeito que deseja governar os outros deve, intransigentemente, provar
que é capaz de governar a si mesmo. A célebre injunção socrática condiciona a participação política à
lapidação prévia da própria interioridade:
{ΣΩ.} Αὐτῷ ἄρα σοὶ πρῶτον κτητέον ἀρετήν, καὶ ἄλλῳ ὃς μέλλει μὴ ἰδίᾳ μόνον αὑτοῦ τε καὶ τῶν αὑτοῦ
ἄρξειν καὶ ἐπιμελήσεσθαι, ἀλλὰ πόλεως καὶ τῶν τῆς πόλεως." (Platão, Alc. I, 135d)7
A partir dessa passagem, nota-se que a fundação da individualidade (o embrião da personalidade) não
é um universalismo bondoso. O cuidado de si, em sua origem greco-romana, é um privilégio de classe
e uma condição de liderança. Foucault nos recorda que os aristocratas espartanos delegavam o
trabalho braçal aos hilotas precisamente para "terem tempo de cuidar de si mesmos". A autonomia
nasce, assim, imbricada a relações de poder-saber. O indivíduo deve exercer domínio sobre suas
5
O uso do termo 'Antiguidade' é aqui empregado sob ressalva crítica, não como categoria absoluta, mas como baliza
temporal para designar o desenvolvimento do pensamento grego clássico, notadamente o período socrático-platônico. A
escolha privilegia a clareza terminológica sem ignorar a pluralidade das tradições de pensamento que o termo habitualmente
engloba.
6 Como se trata de um texxto notório da filosofia, não se vê necessidade de explica-lo no presente trabalho, mas caso o leitor
encontre necessidade de contexto, em resumo, a trama não se inicia com uma indagação abstrata sobre a natureza da alma,
mas com um problema político de legitimação de poder. O jovem Alcibíades, escorado em sua linhagem nobre, beleza física
e riqueza, manifesta a presunção de adentrar a arena pública para governar os atenienses. A intervenção de Sócrates atua
como uma barreira que instaura a aporia: o filósofo demonstra que os atributos externos, que até então garantiam o status
do jovem no meio social, são absolutamente insuficientes para a condução da coisa pública.
7 Transliteração e eradução livre: Sócrates: Você deve, portanto, primeiro adquirir a excelência, assim como qualquer outro
indivíduo que vise o comando e o cuidado, não somente de si próprio e do que lhe diz respeito no âmbito privado, mas
também da cidade e do que lhe diz respeito
LATAM Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales y Humanidades, Asunción, Paraguay.
ISSN en línea: 2789-3855, julio, 2026, Volumen VII, Número 3 p 3025.